Como enfrentar a crise com soluções simples (e baratas)

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Maurício Morgado, coordenador do Centro de Excelência em Varejo, da FGV/SP, diz que entender e educar o cliente não custa nada e têm grande influência na decisão de compra

Fátima Fernandes

Reportagem publicada no Diário do Comércio 22/2/1017

Após enfrentar por dois anos seguidos uma recessão brava, varejistas estão descapitalizados. Investimentos em tecnologias caras, lojas, produtos, com raras exceções, estão fora de cogitação. A ordem é: cortar custos, adiar expansões, encolher, enfim, sobreviver até a crise amainar.

O que fazer para atrair o consumidor sem gastar quase nada em mais um ano de recessão? Veja quais são as sugestões de Maurício Morgado, coordenador do Centro de Excelência em Varejo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

ENTENDER O CONSUMIDOR

No passado, na hora de comprar um sapato, o consumidor recebia a influência de mídias de massa ou guardava na memória a loja onde tinha realizado a última compra. Isso mudou.

Hoje, a decisão de compra é influenciada pelas redes sociais, blogueiro(a)s, Facebook, lojas online, aplicativos, Instagram e o que a amiga postou calçando um sapato novo.

Entender de onde partiu a decisão do consumidor para fazer uma compra vai repercutir na maneira como o comerciante trabalha.

A jornada de compra é o pano de fundo do varejo, não dá mais para escapar disso. A loja, portanto,  precisa entender de onde o cliente está vindo, como ele chega até ela.

EDUCAR O CLIENTE

Cinco perguntas para meia dúzia de clientes podem ser suficientes para entender as dúvidas mais frequentes na hora de fazer uma compra.

Por exemplo: um consumidor que sai de casa para adquirir uma geladeira, o que ele quer saber? Se o produto cabe na cozinha, capacidade de armazenagem, informações sobre degelo, vantagens e desvantagens dos modelos.

Uma maneira de ajudá-lo na decisão de compra é mostrar como a geladeira ficaria na casa dele, e cheia, não vazia, como hoje é apresentada nas lojas.

Quando o vendedor fala em capacidade de 420 litros, 380 litros, ninguém entende nada. Se o refrigerador tiver cerveja, carnes, verduras, itens básicos de consumo, as dúvidas do cliente são elucidadas muito mais facilmente.

Outro exemplo: sabão em pó. Ainda não vi um supermercado explicar a diferença entre eles.  O sabão de coco em pó deve ser usado para que? De que forma? Qual a diferença deste tipo de sabão daquele que é mais comum?

Mais um exemplo: batata. Há diferentes tipos de batata, para fritar, fazer maionese, nhoque e comer cozida. Também nunca vi um supermercado ou um armazém mostrar essas diferenças para os clientes.

Em qualquer setor do varejo, é possível ensinar o cliente a usar os produtos. Isso pode ser feito por meio também de um computador, um tablet ou na própria loja.

Se a loja vende uma camiseta feita em forma de tubo, em uma malha circular, por que não demonstrar como a camiseta é feita? Um vídeo da fábrica pode ser interessante a ponto de decidir uma compra.

Para a loja que trabalha com alimentos, uma técnica para atrair clientes é ensiná-los também a preparar certos produtos de uma forma inusitada.

Estive em uma loja que ensinava o consumidor a utilizar gotas de azeite no sorvete. Esse é um jeito diferente de oferecer nova experiência para os consumidores.

Colocar à disposição do consumidor a origem das azeitonas, as características dos produtos, com maior ou menor acidez, além de degustação, atrai as pessoas.

A americana Pirch, localizada no bairro do Soho, em Nova York, é um bom exemplo do que pode funcionar para um comércio de produtos para a casa.

Todas as torneiras expostas e, dos chuveiros, jorra água. No setor de cozinhas, comidas são preparadas para mostrar o uso dos fornos e outros equipamentos.

SELECIONAR PRODUTOS

Uma loja de roupas precisa ter mais de 100 modelos de camisetas ou ter todas as marcas de azeite disponíveis no mercado? Muito provavelmente, não.

É preciso olhar o desempenho de cada tipo e tirar de linha os que vendem menos. Um número menor de itens é totalmente capaz de passar a ideia de variedade.

Feito isso, a exposição das peças na loja tem de ser feita de maneira que o consumidor possa vê-las facilmente. Não adianta guardar as camisetas dobradas atrás do balcão, como boa parte das lojas faz hoje.

CONSTRUIR UM BANCO DE DADOS DA CLIENTELA 

Ter um banco de dados dos consumidores não custa nada. Qualquer lojista, por menor que seja, tem acesso a um sistema para armazenar dados de vendas.

Um cadastro das pessoas que compram na loja e a frequência ajudam a definir o perfil da clientela, os produtos, o negócio.

Se o cliente não vem na loja há três meses, o lojista pode entrar em contato por email, telefone, sempre da forma que que o consumidor preferir.

Não dá mais para abrir a loja de manhã e ficar esperando o dia todo atrás do balcão que o cliente apareça.

REDUZIR NÚMERO DE LOJAS

A queda de consumo provocou o fechamento de muitas lojas. Não apenas isso. Há lojas em excesso  no mercado. Isso também ocorre nos Estados Unidos, onde há shoppings inteiros abandonados.

No Brasil, quando a economia estava em expansão, aumentou muito o número de shoppings centers e de lojas. Ao mesmo tempo, começaram a aparecer alternativas de compra. O mercado online cresceu muito. O que vai haver é uma seleção de lojas, não tem jeito.

BUSCAR SOLUÇÕES CRIATIVAS

As lojas que vão sobreviver são aquelas consideradas relevantes para o cliente, que trazem algo de diferente, uma experiência. As lojas físicas não vão acabar, mas terão de ser reinventadas.

A rede americana de supermercados Whole Foods, especializada em comida orgânica, criou uma horta sobre sua loja no Brooklin, em Nova York. Isto é, a loja produz em cima e vende embaixo.

Outro exemplo: a Bonobos, especializada em roupas masculinas,abriu as portas no ano passado na Quinta Avenida, em Nova York, com um novo conceito.

O escolhe o modelo, mas não leva na hora. A loja vai entregar o produto na casa dele.

A vantagem é que ele não precisa carregar sacolas. Aqui no Brasil, a Amaro, especializada em roupas femininas, adota o mesmo sistema.

Todo mundo dizia que as livrarias iam desaparecer no Brasil. A Livraria Cultura fez um ótimo trabalho e está aí. Até vende livros, mas também promove cursos de gastronomia e eventos.

Cada mercado deve descobrir seu caminho. Não basta manter mercadoria empilhada na loja -é preciso  algo mais.

Todo mundo acha que há uma solução mágica para trazer o cliente de volta às lojas. Não há. É na conversa com o cliente, com a equipe de vendas que se vai descobrir caminhos para o negócio.

Entendendo o processo de compra, o comerciante vai conseguir assimilar o que falta para o cliente concretizar a venda.

FOTO: Fátima Fernandes/Diário do Comércio e ilistrações de Thinkstock

Entre, compre e saia sem passar pelo caixa. Conheça Amazon Go.

A Amazon quer conquistar o mercado alimentício e, bem, na minha opinião, o mundo. Acabaram de lançar um supermercado onde basta escolher os produtos, tirar da gôndola e sair “sem pagar”. A conta chega por smartphone. Sem filas, sem atendimento nos caixas. Clique na imagem para ver o vídeo – é incrível.

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A Amazon batizou essa tecnologia de “just walk out”, algo como é “só entrar”.
A Amazon Go abriu nesta segunda-feira, 5/12/16, em Seattle, por enquanto só para aos colaboradores, que estão fazendo os testes de funcionamento da loja. Só no início de 2017 abrirá para o público.

É muito disruptivo. É bom acompanhar bem de perto.

Tendências de Varejo 2016 – a era da inteligência e da experiência de compra

Impressões gerais sobre a NRF 2016 

Maurício Morgado, para a revista Gôndola

Apesar de termos mandado muito menos brasileiros para a feira esse ano, 1.135 contra 1.897 do ano passado (-40%), não fizemos feio. A situação econômica difícil no nosso país e o dólar nas alturas fez muitas pessoas procurarem opções mais baratas, reduzirem os dias da viagem e, no final das contas, perdemos só para o vizinho Canadá, com 1.239 participantes. Este ano 34 mil pessoas compareceram à feira – contra os 33.000 do ano passado – e 94 países mandaram representantes ao maior e mais tradicional evento de varejo do mundo, dessa vez na sua 105a. edição.

Mas, além das recordações da nevasca que acabou nos segurando lá por mais 3 dias além do planejado (aproveitamos para visitar lojas!), o que mais trouxemos para casa? Muito aprendizado. A consolidação de ideias do ano passado e novos pontos de atenção para um 2016 que não promete ser nada fácil para o varejo brasileiro. Vamos aos pontos mais importantes desse ano.

Millennials

Esse foi o assunto da moda em toda a convenção. Era difícil participar de uma palestra e não ouvir falar dos “millennials“. Mas, afinal, o que é isso, ou melhor, quem são esses? Os millennials nasceram no período que compreende o início dos anos 80 e o início dos anos 2.000 e têm entre 15 e 35 anos hoje em dia. Estima-se que sejam 2 bilhões de indivíduos no mundo. Muita gente mesmo.

Os millennials caracterizam-se por uma proximidade grande com a tecnologia, por ainda não terem atingido um alto padrão de renda, por uma certa inquietude em relação ao emprego tradicional, um certo desejo de fugir do modelo de carreira corporativa. Por conta disso, apresentam uma rotatividade no emprego e uma vontade de empreender muito maiores em relação às outras gerações. No que se refere ao consumo, estão mais preocupados com o PORQUÊ comprar algo do que simplesmente no QUE querem vender-lhes. Interessa-lhes mais as histórias por detrás das marcas do que os produtos em si.

Entender esse consumidor faz toda diferença. O CEO da Choice Hotels, Stephen P. Joyce, ressaltou em sua palestra que, enquanto os baby-boomers chegam a seus hotéis e querem desesperadamente ter acesso ao quarto, os millennials, além de preferirem não ter que falar com ninguém no processo de check-in, pouco se incomodam em esperar sentadinhos no lobby pelo quarto ficar pronto, desde que possam acessar a Internet nos seus telefones celulares.

Queridinha desse público, um caso bastante discutido na convenção foi o da Shinola. A empresa fabrica relógios, bicicletas, artigos de couro e agendas de alta qualidade e durabilidade, utilizando processos semiartesanais. Têm como ideal a preservação do artesanato e da beleza das técnicas de manufatura. Escolheram construir sua fábrica em Detroit com a ideia de revigorar a cidade e de trazer empregos de volta para os EUA. Esse tipo de história é perfeito para atingir os millennials: lhes dá o PORQUÊ comprar, muito mais do que o QUE comprar que tanto precisam para se engajar com uma marca. Visite o site shinola.com, navegue pela linha de produtos que você vai entender sobre o que estamos falando.

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SHINOLA NYC

No ramo supermercadista, um varejista norte-americano que entende muito bem os millennials é o Traders Joe. Trabalhando com uma linha de mercadorias extremamente enxuta (cerca de 2.400 itens, a maioria de marca própria), a loja entrega produtos de qualidade, focados em praticidade, adequados ao bolso e ao gosto desse consumidor, mais preocupado com a qualidade e saudabilidade dos alimentos. Um sucesso, sem contar sua história, original da Califórnia e com um pé no surf e em estilo de vida mais despojado.

Adeus Omnichannel, bem-vindo Onechannel

Esse ano pouco se falou de omnichannel e quade nada de multicanal. Já se parte do princípio de que as empresas varejistas atuam dessa forma, de que é mandatório ter presença online e de que um percentual significativo das vendas ocorre em dispositivos móveis (e estamos falando de cerca de 1/4 dessas vendas). Segundo Sir Charlie Mayfield, CEO da John Lewis, grupo inglês que detém o controle da loja de departamentos de mesmo nome e dos supermercados Waitrose, “a noção de dois canais não é saudável”. Para ele, “a era do multicanal acabou, temos que tratar tudo como um canal só, onechannel”.

A ideia de Mayfield é muito provocadora e interessante. As pessoas querem se relacionar com a marca do varejista, independente do ponto de contato – e querem fazê-lo sem perceber diferenças de tratamento entre os canais. Não lhes importa se o contato está sendo feito no celular, no televendas, no quiosque, no site ou na loja física.

Dos dados à inteligência artificial

O mundo cada vez mais digitalizado gera uma quantidade de dados incríveis à disposição dos varejistas. O desafio é organizar tudo isso, tirar informações úteis para o negócio e aproveitar esse mar de dados para auxiliar o cliente em seu processo de compra. Na feira foi possível ver diversas soluções para contagem de tráfego de clientes em loja (com filmagem e classificação automática de gênero e faixa etária de cliente). Também há sistemas que buscam identificar a presença do cliente na loja a partir de seu smartphone, quer seja pelo acompanhamento do sinal do celular, quer seja pela utilização de beacons através dos quais o cliente pode interagir com a loja e seus produtos. Identificado o cliente, o diálogo pode ser estabelecido no próprio celular, reconhecendo-se padrões de compra, eventuais necessidades de informação, dirigindo-lhe ofertas e demais interações que possam interessar. É difícil de imaginar até onde a riqueza que isso traz para programas de fidelização e mineração de dados pode nos levar.

Esse ano a inteligência artificial ganhou espaço com uma aplicação no varejo. Muitos de nós já experimentamos assistentes digitais como Google Now, Siri e Cortana mas, que tal termos um desses para auxiliar na escolha de produtos? Foi o que a North Face apresentou juntamente com a XPS. Utilizando o supercomputador Watson da IBM a empresa desenvolveu um aplicativo através do qual, em linguagem natural, o cliente pode interagir e obter a indicação da jaqueta mais indicada para o tipo de esporte que irá realizar. É isso mesmo, você conversa com o software, responde perguntas como se estivesse falando com um vendedor, e termina com a indicação do produto mais adequado às suas necessidades.

O novo papel da loja física

Com esse novo contexto de Onechannel, cabe agora discutir o novo papel da loja física e o que ela deve prover ao consumidor para poder atraí-lo. As lojas físicas mais interessantes têm oferecido possibilidades de descoberta, de personalização e de experiências sensoriais inusitadas. Afinal, se fosse somente para comprar produtos, porque não fazê-lo à distância, pelo smartphone, por exemplo?

A loja da Nixon, fabricante de relógios low tech e sucesso entre os millennials, tem em suas lojas um artesão que monta o relógio na frente do cliente a partir de um kit de combinações previamente estabelecidas. O cliente também pode personalizar a parte de trás do relógio com inscrições feitas a laser na própria loja. Com cerca de US$ 150,00 é possível fazer essa personalização.

A Muji, que oferece produtos com design japonês em roupas, materiais para casa e papelaria em geral, inaugurou uma loja nova na Quinta Avenida que é a própria materialização da experiência de compra. Com mais de 700 lojas no mundo, nessa segunda loja de Nova Iorque o varejista criou espaços onde é possível personalizar carimbos, aromas para difusores, descansar em grandes e espaçosos puffs e, simplesmente, ver o tempo passar. A curiosidade que os produtos de estilo japonês contemporâneo provoca dá vontade de ficar por lá um tempão. Com as fotos a seguir dá para ter uma ideia do espírito da loja.

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MUJI QUINTA AVENIDA

A Rough Trade foi outro caso marcante muito comentado por lá. Aberta originalmente em 1976 em Londres, a revenda de discos sofreu com a música digital e hoje conta com três lojas, duas em Londres e uma em Williamsburg, no Brooklyn. O aprendizado da época do sofrimento digital fez a loja ser realmente especial. Há um café, duas mesas de ping-pong com máquinas que dispensam as bolinhas por US$ 0,25, um auditório para shows com bandas de música, bicicletário, espaços para simplesmente ficar e relaxar com os amigos e muitos LPs e CDs para venda. Sim, muitos LPs, os antigos discos de vinil que voltaram com força ultimamente. Fazendo jus ao nome Rough (bruto, mal-acabado), a loja toda tem o piso de cimento queimado, diversos ambientes foram montados com containers soldados entre si e tudo é muito rústico, mas, estranhamente, caloroso e acolhedor. Veja as fotos para entender.

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Gente

O varejo, lá na ponta, é feito de gente e o momento mais tocante dessa NRF foi trazido pelo general Colin Powell, hoje com 78 anos e aposentado. Ele foi o 65o. secretário de estado do presidente Bush e serviu como assessor de segurança do presidente Reagan. Powell contou que quando ainda era um adolescente no Bronx, um judeu, dono de uma loja de móveis e brinquedos, o puxou de lado um dia e ofereceu 50 centavos por hora para descarregar um caminhão. Ele aceitou e, no final do dia, o proprietário perguntou se Powell voltaria no dia seguinte. Powell assim o fez por diversos anos, no verão e no Natal.

“O que eu me lembro vividamente é de ter aprendido tudo sobre o trabalho”, disse ele. Aprendeu a chegar na hora e perceber o que estava acontecendo na loja, fazendo-se indispensável por ali. Powell também pegou o suficiente de iídiche para mostrar aos clientes os produtos em estoque e entender o que eles diziam um ao outro, tudo isso enquanto pensavam que ele não entendia o que estavam falando. Assim, discretamente, ele podia contar ao proprietário da loja o quanto as pessoas esperavam pagar pelos produtos vendidos.

A lição de vida veio alguns anos mais tarde. O proprietário da loja mais uma vez o chamou de lado para uma conversa e disse-lhe que a loja iria passar para sua filha e para o seu genro. Disse também que ele não teria futuro ali e, como era um bom garoto, deveria estudar para estar pronto para outras oportunidades.

“Naquele momento”, disse Powell, “ele mostrou que se importava comigo. Isso me marcou para o resto da minha vida”. Segundo ele, valorizar os outros e inspirar confiança e respeito são princípios tão importantes no varejo, como em qualquer outro lugar que requeira liderança.

O general deixou uma frase muito marcante e que pode ser inspiradora para muitos varejistas: “Se você confia nas pessoas, você deve lhes dar poder e autonomia. Elas acreditarão em você e no poder da sua organização.”

Sua fala emocionou pela verdade e real sentimento que passou. No meu ponto de vista, foi o ponto mais alto da NRF esse ano.

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COLLIN POWELL NA NRF

E qual varejista andou colocando as pessoas em primeiro lugar? Foi a Microsoft. O caso foi apresentado na feira e pudemos constatar pessoalmente que o atendimento e o clima da loja são excepcionais. Não é a primeira loja da empresa mas essa da Quinta Avenida é a flagship em Nova Iorque. O que poderia parecer uma imitação da loja da Apple à primeira vista, se transforma em uma experiência encantadora pelo nível e dedicação do atendimento das pessoas que ali trabalham. Ainda lembro da simpatia da Marcela, de família colombiana, que me atendeu na terceira visita que fiz à loja. E nas outras duas a impressão havia sido a mesma.

Tecnologias disruptivas

Duas tecnologias que foram enfatizadas esse ano e que têm um alto poder disruptivo, particularmente por oferecerem potencial para a desintermediação. A primeira é a impressão 3-D, através da qual objetos podem ser feitos sob demanda, um a um, sem a necessidade de fábricas ou estruturas de distribuição. Há modelos de impressoras 3-D que custam US$ 2.000,00 e o caso mais notório de sua aplicação é o da Normal, empresa que, a partir da digitalização da imagem do pavilhão auricular do cliente, imprime fones de ouvido com encaixe perfeito às curvas de cada orelha.

O segundo caso marcante apresentado esse ano foi o da tecelagem automatizada. A premiada jovem estilista Natalia Allen fundou uma empresa que utiliza robôs para produzir vestuário automaticamente. As peças saem sem costura e prontas para uso da máquina. Entra o fio, sai o vestido.

Há uma terceira tecnologia, a de visualização de realidade em 3-D, que promete mudar a experiência de compra, tanto na loja quanto online. Usando óculos especiais e fones de ouvido o cliente pode ter uma experiência de grande imersão e ser transportado para ambientes virtuais em três dimensões. Esses ambientes podem ser, por exemplo, paisagens relaxantes, o interior de um veículo que se queira demonstrar ou mesmo o passeio virtual por uma loja. As escolhas são feitas através de “cliques” dados com piscadelas. O Oculus Rift é o grande exemplo dessa tecnologia, mas você já pode brincar em casa com o Google Cardboard.

Na área de serviços dois casos foram apresentados com a pegada criativa e transformadora de mercados que já vimos em Netflix, Uber e Air BnB. Tratam-se da Gleem e do HelloAlfred. As fundadoras da Gleem conceberam uma empresa na qual interessados em se desfazerem de suas joias podem colocá-las para avaliação, vendê-las e receber o pagamento em dinheiro ou, se preferirem, em outras joias. As peças ficam em consignação, são transportadas pela Brinks e avaliadas pelo Lloyds de Londres. O caso do HelloAlfred é também muito interessante. Ao filiar-se ao site, o cliente contrata um mordomo pessoal para fazer-lhe diversas tarefas semanais, desde compras, lavanderia, regar as plantas e coisas assim.

Mudança da relação com a comida

Como o principal público desse relato é supermercadista, vale registrar as tendências mais relacionadas à alimentação que apareceram por lá. Particularmente em relação aos millennials, lhes interessa a comida real, algo que vai além da saudabilidade em si. Se houver uma história suportando a marca, melhor ainda. O sucesso da hamburgueria Shake Shack, que nasceu de um carrinho de hot dog para apoiar a entidade de conservação do Madison Square Park em 2001 explica um pouco da relação desse público com a comida. Em 2004 conseguiram a licença para um quiosque de hambúrguer nessa mesma praça e hoje estão em 45 endereços nos EUA e presença internacional na Turquia, Japão, Oriente Médio, Rússia e Reino Unido. Essa história (e os deliciosos hambúrgueres, claro), ajudam a explicar seu sucesso.

Marian Salzman, CEO da Havas PR North America, comentou que uma das grandes tendências de mercado seria o desaparecimento do hábito de preparar alimentos a partir de ingredientes frescos em casa. Numa época em que programas e livros de culinária fazem grande sucesso e que os chefs são tratados como celebridades, soa paradoxal. Mas, quantos, de verdade, reproduzem aquelas receitas em casa?

Sem abandonar a preocupação com a saúde e a origem dos ingredientes, a palestrante vislumbra haver espaço enorme para as refeições fáceis de preparar, desde que saudáveis e não-processadas. Alimentos que possam ser preparados facilmente em casa, quase prontos, com grande apelo à comodidade, são uma grande oportunidade para fabricantes e varejistas. Salzman alerta que quanto mais o varejo estiver envolvido com o fornecimento desse tipo de alimento, mais deverá se preocupar com sua qualidade nutricional e saúde dos seus clientes.

Resumindo

Mais do que nunca, a loja física marcou presença esse ano. Tem seu lugar indispensável no mix varejista, mas deve ser repensada. Seu novo papel é de fortalecer a marca, intensificar a experiência do consumidor com os produtos e serviços, tirá-lo da rotina, transportá-lo para momentos de prazer e relaxamento. Mas isso não basta. A riqueza de dados à disposição do varejista permite que a experiência do cliente seja cada vez mais personalizada, que suas preferências e gostos sejam conhecidos, que seu momento de vida seja considerado nas ofertas e comunicações da empresa. A junção de tecnologia, ambiente de loja inspirador e, sobretudo, equipe (gente!) motivada e qualificada para entregar atendimento inspirador continuará fazendo toda a diferença.

Saia de mãos vazias

A Bonobos, na parte baixa da Quinta Avenida, faz vizinhança com marcas tradicionais como J.Crew, Zara e Gap. Diferentemente dessas lojas, você pode visitar a Bonobos, provar tudo o que tem por lá, ser atendido de forma personalizada e, literalmente, sair de mãos abanando. Essa loja de moda masculina não tem estoque, só mostruário.

A operação nasceu puramente online e testou essa ideia em 2011, quando ainda parecia uma maluquice. Hoje a empresa tem 20 dessas lojas, do Texas até a Califórnia e pretende abrir mais sete em 2016, conforme a The Economist.

Com vantagens operacionais imensas, níveis de estoque baixíssimo e centralizado em um CD, a loja física foca em atender bem os clientes e complementar a operação online. Veja as fotos que tirei da loja.

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Varejo tem o pior resultado em 11 anos!

Hoje saiu a PMC, a Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE. Veja no gráfico abaixo como o índice dessazonalizado mostra uma paradeira no varejo desde março de 2013. Houve uma pequena retomada no segundo semestre de 2014 mas o Natal decepcionou. Os níveis de venda do Natal de 2014 foram praticamente os mesmos do Natal de 2013, com um crescimento de somente 0,3%. No geral, a variação acumulada dos últimos doze meses, foi de 2,2%, o pior resultado desse tipo nos últimos 11 anos, segundo o Valor.

No post anterior mostrei que a confiança do consumidor andava baixa. Do empresário do  varejo idem – segundo o IBRE, da FGV, está no pior nível desde que tal indicador começou a ser levantado.

O Natal na sua casa não foi mais conservador?

PMC fev 2015

Confiança do consumidor, sistema Cantareira e ações da Petrobrás – tudo em baixa.

Pois é, a confiança do consumidor só aponta para baixo. Está em níveis inferiores ao da crise de 2008 e já bateu nos patamares da época do mensalão, em 2005. Em tempos de escândalos políticos e financeiros bilionários, seca na torneira, ameaça de apagão energético e economia travada, o consumidor vai travar o bolso.

Dava para ter evitado? Poderiam ter feito mais obras de infraestrutura na época das vacas gordas? Poderiam ter dado um choque de gestão e reduzido a roubalheira? Poderiam sim, mas não o fizeram. Agora é sobreviver em 2015 e torcer para um 2016 melhor.

Confiança 2014